Na estrada de terra vermelha, toda enlameada, o “fuca” ia roncando ao entardecer. Finalmente chegara a grande oportunidade de assistir uma apresentação no Teatro Serelepe. Era o que sempre quis. Eu havia economizado um dinheirinho para o ingresso, e mais um cachorro quente e um refrigerante, quem sabe. Até a passagem do ônibus eu economizava, indo de carona com o vizinho. Além dele, íamos a mulher, dois guris e eu.
Grande expectativa na chegada. Fila e muita gente. O cartaz anunciava com letras enfeitadas “Hoje A Dama das Camélias”.
Isso faz trinta anos e, agora, leio no jornal que o Teatro Serelepe está instalado no largo da Epatur (Largo Zumbi dos Palmares), aqui pertinho, em Porto Alegre. Não posso perder esta grande chance de ir assistir um espetáculo. Pelo que leio, vai ser diário, de hoje até dia 26, sempre às 19h30min, com entrada grátis. Basta chegar uma hora antes e retirar uma senha.
O pessoal do Serelepe, que completa 75 anos, também está ansioso para conhecer o público da capital. Afinal, a última vez em que eles passaram por aqui foi em 1949.
Mas, voltando trinta anos, naquela noite, não havia mais ingressos. Lotação esgotada para assistir a “Dama das Camélias”. Grande frustração, minha e dos que ficaram de fora. Dias depois, o Serelepe foi para outra cidade e eu fiquei só na vontade. Alguns anos depois vim para a capital e o Serelepe continuou sua trajetória no interior.
Lembro-me ainda que, naquela noite, fomos até o cinema e estava em cartaz “Um Homem Chamado Cavalo”. Eu tinha 15 anos e o filme era proibido para menores de 18 anos. Que azar meu, e sorte dos adultos: fiquei tomando conta dos piás, escutando rádio no fusca.
Anos depois, voltando à minha terra, Três Passos, dei de cara com o Serelepe armado. Era uma segunda-feira de carnaval, na terça voltaríamos a Porto Alegre. Vou até o teatro e lá me informam: Hoje não haverá espetáculo. – Segundas-feiras é dia de folga da companhia. Que azar o meu!
Mas, agora, vou tentar assistir alguns espetáculos da temporada, aqui na Cidade Baixa, do Teatro de Lona Serelepe, que é um dos homenageados do “Porto Alegre Em Cena”.
Não posso perder. Será que haverá sessões às segundas-feiras?
ENFIM, NO SERELEPE
Em 1974, deu tudo errado. Quando chegamos, o Serelepe já estava lotado.
Agora estou no camarim do Marcelo, vendo como ele se prepara para entrar em cena. No caminhão apertado, outras pessoas se preparam. Faltam só quinze minutos para a sessão começar. Quase nem acredito. Será verdade?
Tantos anos depois, finalmente vou assistir a uma peça no Serelepe.
Tomo meu lugar na plateia, quando o alto-falante anuncia: “Vai começar o espetáculo de sonho e magia!” Meu coração dispara.
A cortina se abre e eu volto 30 anos. Viajo 500 quilômetros num instante e refaço aquela noite de 1974. Será agora. Desta vez vai dar tudo certo.
Em vez de serragem, asfalto. Em vez de interior, capital.
O cheiro de pipocas, o clima de circo, tem tudo de minha adolescência no interior. A emoção é que é mais forte!
E o Marcelo? É o palhaço Serelepe, no palco transformado num gigante. Antes, sério, compenetrado; em cena, solto, malicioso, sem perder a ingenuidade das piadas de circo.
Tudo está posto em seu lugar. Finalmente vivo aquela noite que deixou de acontecer para mim.
Hoje sim está completo. De pé, olhos marejados, ouço aplausos e, como outrora, a chuva cai. Há goteiras sob a lona.
Obrigado!