Censura NÃO

“Não existe nada mais velho do que o jornal de ontem!”
Muito se ouvia esta frase no tempo em que só havia jornal impresso. Não sei de quem é a autoria. Tem jeito de Nelson Rodrigues, mas o google não meu forneceu a informações mais seguras.
Lembrei-me da frase hoje pela manhã ao conversar com meu vizinho de condomínio. Fazia tempo que eu não o encontrava e foi muito bom. Achei ele tão calminho, nada polêmico, não questionou, não falou de política, meio que concordamos em tudo. Isso foi hoje. Explico.
Este meu vizinho, além de gostar de uma polêmica, tinha, ou talvez ainda tenha, opinião política oposta à minha, além de ser um conhecido pão duro.
Gosta de ler jornal e para não gastar, acertou comigo que eu lhe deixasse os jornais lidos do dia anterior.
– Tudo bem, eu respondi, com uma condição – te deixarei a edição de anteontem, de dois dias atrás.
– Por quê, perguntou.
Explique que minha mulher, de vez em quando, cisma de ler uma notícia, algum artigo ou citação, no jornal de ontem. Recebe alguma mensagem das amigas, irmãs ou cunhadas, e aí me pede para conferir. Pois então. Eu não descarto o jornal no dia seguinte. Só no outro. Vai que minha esposa queira ver e eu já tenha descartado.
O vizinho concordou, o negócio dele é não pagar, e assim seguimos no combinado. Ah sim! Tem mais. Ele junta os jornais de uma semana e repassa para outro vizinho, que, por sua vez, repassa para um cunhado, que usa na fabricação de moldes de bonecos de fibra de vidro. Mil e uma utilidades, lei de Lavoisier. Eu fico feliz, pois além colaborar com os vizinhos, não descarto simplesmente. Sou do tempo em que se vendia garrafas, jornais velhos e outros badulaques.
Bom isso vem funcionando há alguns anos. Aconteceu o seguinte, de uns tempos para cá, com a polarização no país, o vizinho que lê o jornal repassado, começou me questionar muito. Falar sobre política, criticar candidatos, coisa e tal. Me chateando. Eu, que não sou bobo, percebi quais eram os assuntos que ele sempre debatia e voltava a insistir.
Sabem o que fiz? Passei a recortar as páginas do jornal com críticas que ele gosta, além de, é claro, evitar encontros para não entrar em polêmicas desnecessárias.
Estava indo tudo bem, até que hoje, tenho impressão de que ele me esperou na tocaia, quando deixei o jornal de sexta, hoje é segunda-feira, me questionou:
– Não achas que o jornal está cada vez mais magrinho?
– Deve ser a crise, respondi.
– Não achas que é censura?
– Claro que não. Temos liberdade total de imprensa!
Notei nele a calma, sem provocações, um pouco irônico. Talvez sarcástico.
Como de ironia eu não entendo muito, apenas dei um leve sorriso e segui para casa com o jornal de hoje debaixo do braço, que meu vizinho só verá, desfolhado, ralhado, depois de amanhã.

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