Todo mundo está eufórico. Muita coisa deve ser feita. A família precisa pegar junta. É madrugada; os galos começam a cantar e o pessoal da colônia está levantando.
Enquanto um acende o fogo e prepara o chimarrão, outro dá uns rastolhos para o gado e tira o leite das vacas. A gurizada também está de pé e, apesar dos resmungos, empilha tijolos no galpão, isso depois de marcar a forma e o tamanho do tacho que será utilizado sobre o fogo de chão. Até o milho em grão já foi jogado perto do galinheiro, mas continua intacto, porque enquanto os galos cantam chamando a barra do dia, as galinhas semi-acordadas ainda não deixaram o poleiro. É muito cedo. Hoje a família levantou antes de acordar!
Tudo é alegria; tudo é festa. até os cuscos estão mais alegres andando daqui para ali sem rumo certo. Também os gatos já notaram que hoje será um dia especial.
Mas por quê? Qual a razão de toda essa euforia?
Não é difícil saber – o tacho, os rastolhos para os bois, e , para não deixar dúvidas a carroça carregada até a borda com cana de açúcar desde à véspera; todos os indícios denunciam : hoje é dia de fazer melado.
Alguém dá um pouco de ração para os porcos, que mesmo fora de hora, acordam botando a boca no trombone.
Os preparativos estão quase no fim; nem o chimarrão tem volta certa , pois a toda hora alguém lembra de mais alguma coisa para fazer.
Depois dos mates é hora de embrochar os bois e começar a moer a cana. A prensa (moenda) de madeira já muito velha e bastante usada, é uma recordação do fata (avô) que era especialista em fabricar esse tipo de engenho. Cheia de cunhas e contra-cunhas que regular mais ou menos pressão da cana, precisa ser martelada de vez em quando, apertada ou afrouxada conforme à necessidade. Não falta um pedaço de sabão de soda que serve para untar, para quando a porquêra começa gritar, nas superfícies onde ocorre a fricção de madeira com madeira.
Os bois caminham à passos lentos treinados que são. Enquanto um coloca a cana no engenho e retira o bagaço, o resto do pessoal apara, carrega e despeja a guarapa no tacho de latão, depois de filtrá-lá através de um saquinho de algodão poroso. Tudo funciona a contendo parecendo ensaiado. Depois de tantos anos funciona como uma companhia de balé.
A guarapa começa a ferver e lá pelo meio da tarde o melado estará pronto.
Ao meio-dia mais ou menos, é hora de tomar um chimarrão ao redor do fogo com os vizinhos que aparecem para trocar uma prosa e saber novidades. Os assuntos são os mais variados sempre em relação ao meio: plantação, criação, caçadas, pescarias, política, religião e por aí a fora. A tarde quando a guarapa começa formar olhos-de-boi a fervura do melado está pronta. Agora só falta tirar do fogo e ficar mexendo até esfriar para ficar bem clarinho no capricho.
Geralmente nesta hora todo mundo está por perto dando uma mão, brigando para lamber o tacho ou experimentar o melado novo num pedaço de pão de milho com käeschmier da colônia.
Algumas brincadeiras tradicionais são comuns nesta hora. a mais conhecida acontece entre o casal. Um dos dois chega para o outro e pede para que este diga uma palavra com doçura e ouve como resposta simplesmente: melado meu bem!
Todos riem da brincadeira apesar de velha e batida.
(Crônica publicada na revista de cultura gaúcha TARCA nº 000 Ano I, do ano de 1984)