Em outra crônica, mencionei a trilha bem interessante aqui em nosso condomínio. Como sou topógrafo, medi a passos duplos de cima a baixo. Foram 428 passos duplos e, valendo-me do tempo da caserna, concluí que isso resulta em uma distância acima de 500 metros. Como desço e subo três vezes a trilha, faço 3 km de caminhada diária. Além disso, há um desnível de 72 metros, topógrafo tem que saber, a ser vencido. Uma subida considerável.
Assim, conheço as pedras, as escadas, as raízes, as árvores. Sei onde colocar um pé e outro pé, principalmente na subida, quando a pernada exige força para vencer os degraus. Agora mudei o horário. Todo mundo ia à tardinha, com o sol de verão, e com isso, em certas ocasiões, muitos se cruzavam na trilha estreita. Como estamos em tempos de evitar aproximações, passei a caminhar ao meio-dia. O sol do outono nessa hora está mais amigável. E, apesar de conhecer tão bem cada passo, a cada vez descubro aspectos diferentes. Hoje, com o sol a pino, me surpreendi com uma paineira em flor. Um enxame de abelhas e insetos fazia a festa na copa de flores rosas e brancas. Coisa linda! Como nunca havia reparado nisso?
Lembrei-me de um audiovisual que assisti no Studio Flávio Del Mese, onde ele exibia slides do Caminho de Santiago de Compostela, isso não foi no tempo do rascunho da Bíblia, nem das diligências. Ele explicava que fazia o caminho duas vezes, exigente fotógrafo que era.
Fotografia é luz e sombras, dizia ele. Pela manhã temos um tipo de claridade. À tarde, outra luminosidade, outras sombras. Na fotografia, o efeito disso muda completamente o resultado.
Talvez seja isso que me fez ver a paineira hoje. Normalmente eu passava à tardinha, com menos luz, ela não chamava atenção. Agora, com muito sol e as flores magníficas, me atraiu. E logo hoje que eu não levei o celular para fotografar! É que ontem um vizinho observou:
– Pra que telefone? Deixa em casa.
Então! Deixei. Amanhã volto para fotografar.
Isso me fez retroceder aos tempos de recruta na cavalaria lá no Alegrete. No estágio básico há uma instrução à noite, sobre progressão noturna de patrulhas. Eu lembro, viu, sargento Melo? Colocavam o esquadrão sentado numa encosta, no campo, longe da cidade, ao fundo um bosque de eucalipto, na frente, mais longe, o mato na restinga. Todos em silêncio. Uma voz feminina, suave, mas firme, pausada e dramática, narrava mais ou menos assim:
“Eu sou a noite. Sou romântica, perfumada e suave. Mas posso ser cruel, agressiva e violenta. Guardo no fundo da escuridão muitas surpresas e segredos. Meu manto escuro pode ser a proteção em forma de camuflagem, se bem usado. Ou, ao contrário, pode esconder nas trevas a surpresa de uma emboscada fatal do inimigo. Quem souber tirar proveito das minhas virtudes, pode contar comigo como aliada. A vitória será o troféu. Me desprezando, a derrota na batalha é certa. A morte será o castigo.”
E assim prosseguia, deixando todos entre extasiados e temerosos. Era essa a ideia. Esta a parte boa da instrução, pois assistíamos sentados no capim. Depois das preliminares, saíamos em progressão, rastejando na lama fedorenta, ouvindo tiros e explosões de granadas na restinga cheia de unhas de gato. De madrugada voltávamos sujos e lanhados ao acampamento, com direito a um chá brochante suspeito.
Pensando nisso, amanhã farei a trilha à noite. Preciso treinar progressão noturna, que é forma de reconhecer o caminho. E andar por ele no escuro e ter a noite como aliada. Se chover, tanto melhor. Afinal, nesses tempos tenebrosos, nunca se sabe de onde virá o ataque.
Virá do sol?
Ou das sombras?